Vou fugir da coisa.
— Uma hora eu escapo! Você vai ver.
— Escapa nada, sou mais forte que você.
— Forte? Forte... Você não é forte nada, se entrega a qualquer coisa.
— Não me entrego a coisas, que ideia é essa? Me entrego a pessoas, ideais, sonhos, não a coisas. Você nem sabe o que são coisas.
— Coisas é tudo aquilo que leva o nada ao lugar algum. Ou que de tão insignificante que são, não merecem nome: são coisas.
— E por que tudo tem que ter propósito, significado, êxito, ou ser mensurável?
— Porque senão, fica igual a cachorro correndo atrás do rabo, só levanta poeira e deixa rastro; mais nada acontece ou fica.
— E quando você escapar, como será?
— No começo, rápida vou andar, nem vou olhar para trás, vou fixar um ponto no horizonte e nessa direção correr sem cessar.
— E quando lá chegar?
— Sento, descanso e tomo um gole de vida.
— E o que terá nesse gole?
— Não sei ao certo...
— Qualquer coisa, talvez?
— Não me venha com essa, você está me manipulando.
— Estou não, você ainda não sabe o que quer. Não sou eu que sou forte, é sua vontade que ainda está fraca. Pare de tentar fugir, eu nem tenho tentado segurá-la, você é que não sabe para onde ir.
— Você é uma coisa!
— Sim; sou; sou a sua coisa, estou contigo e não abro. Eu não vou embora; mas se você um dia for, eu posso ficar, basta que você me esqueça, consegue?
— Eu ainda vou tentar.
— Quando?
— Ah não sei, que coisa!
Revisão em maio de 2026.
Entre 2008 e 2012, este texto foi encenado algumas vezes em forma de monólogo por atrizes iniciantes. Quem estreou essa iniciativa dramatúrgica na minha obra foi Sabrina Carvalho — gratidão e muita saudade. Sua interpretação dava à “coisa” uma mistura bonita de humor, angústia e absurdo.
Bem, precisei agora tirar o acento da palavra ideia. Foi de boa, nem doeu; a ideia continuou inteira.
Também troquei aquele monte de sinais de menos (-) por travessões. Na minha trajetória na literatura, só compreendi que eles não eram nem de perto semelhantes quando virei editora.
Há que se relevar: minha primeira profissão foi a de contadora.
Citando Heráclito:
“Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois nem o rio nem o homem serão os mesmos.”