Eliana de Freitas

Que histórias são essas?

Textos

Desculpa esfarrapada

Oh jovens de cara lavada
Desculpem essa inércia estampada
Na minha cara pintada.

Vou contar umas coisas

Meu trisavô era paulista
Meu bisavô pernambucano
Todos deitados em berço esplêndido
De um sonho republicano

Percorrendo essa genealogia
Verá que o genial acontecia
Não para eles acolá
Só para nós de cá.

E nessa marcha que separava
Quem ia de quem ficava
Quem tinha de quem só falta possuía
Se alguém percebeu
O que acontecia
Na roda viva foi queimado
Enquanto outro só assistia.

Um silêncio ensurdecedor
Calou o grito que era nossa herança
Dado por Pedro ou balbuciado por Joaquim
Que importa?

A garganta foi ferida
Não sabendo mais gritar
Meu avô que era mineiro
Disse que todo mundo
Viu tudo isso acontecendo
Enquanto dava milho aos pombos.

Quando a mordaça afrouxou
Meu pai e outros heróis apareceram
Mas o gozo os chamava
E de overdose eles morreram
Assim, contou um poeta.

Os anos passaram mais rápidos que os dias
Num deles enganada e indignada
Lembrei que não tinha mais mordaça
Invadi ruas e praças
Sem violência, mas com muita bravura.

Deixei que do meu peito brotasse
E na minha face estampasse
As cores do meu protesto
Com apenas cores na cara
Aquela minha cara pintada
Conquistou fatos e atos
Mas não as mudanças.

Depois que pari vocês
Muita coisa piorou
O medo em mim imperou
Maior que qualquer responsa
Que eu tivesse com essa história.

Agora Brasília descaradamente
Passa a mão na gente
E já não é destra ou canhota
Agora trabalham juntas.

A São Paulo que não para
Juntou-se a outras cidades
E por falta de voos
Também senta e espera...

Quase nada rima
Quase nada combina
Nada está no lugar
No Rio, o menor dos Hélios não está mais lá.

Eu nem precisava contar
Essas coisas vocês veem
Por horas e horas a fio
Prostrados à frente da tela
Infelizmente sem nenhum pavio
Nenhum estopim para essa terra
Vivendo virtualmente
Sem ver o mundo de frente.

Então, eu só posso dizer:

Oh jovens de cara lavada
Desculpem essa inércia estampada
Na minha cara pintada.

Escrevi este texto de uma vez só, sentada à mesa do jantar com meus filhos, depois de voltar exausta de ônibus do trabalho na Editora Limiar.

Morávamos numa casa de 26 metros quadrados, estávamos falidos, e eu repetia que não era poeta, mas romancista.

Até que meu filho, o poeta Thiago Peixoto, me provocou a escrever sobre aquilo que me indignava.

Peguei folhas pautadas e escrevi sem parar.

O “menor dos Hélios”, citado no texto, é João Hélio, menino de seis anos assassinado brutalmente no Rio de Janeiro, num crime que marcou profundamente o país e a mim.

Venho de um tempo em que até a criminalidade parecia obedecer a certos limites perversos compartilhados pela própria sociedade. Ver uma criança ser arrastada daquela forma pelas ruas foi algo com que jamais consegui me conformar.

A ele, dedico esta prosa.

Revisado em maio de 2026.

Eliana de Freitas
Enviado por Eliana de Freitas em 28/03/2007
Alterado em 17/05/2026
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