Eliana de Freitas

Que histórias são essas?

Textos


Pai, quando o tempo reescreve a nossa história.

Esta semana faço 45 anos. Tem hora que parece muito, tem hora que parece pouco.
No dia que meu pai morreu, gritei aos céus que não queria nem mais um dia de felicidade ou novidade, só por não tê-lo mais ao meu lado para ouvir as minhas façanhas. Ainda bem que Deus não me levou a sério, pois já se passou 9 anos, e pelo jeito ainda vou durar um bocado, o suficiente para que se nada de melhor acontecesse, seria praticamente insuportável essa vida.
A minha intempestuosidade daquele momento, só revelava a ignorância que tenho, sobre a vida e seus esquemas.
Estes dias o tempo me veio provar, que ainda tenho muito a aprender. A minha relação com o meu pai não acabou com a sua morte, quando erro, tento consertar, só pela lembrança que tenho do que ele iria achar. Quando acerto, ofereço a ele as minhas alegrias.
Eu julgava que esta relação tão forte existia por conta dele ter sido um ótimo pai: presente, carinhoso, cuidadoso, amigo, educador - nunca se esquivou de suas responsabilidades perante a mim. Porém, não deve ser isso que nos leva, eu e meu pai, a uma relação tão próxima. Esta verdade foi suplantada por outro episódio que me bateu à cara recentemente.
Minha filha foi abandonada por um longo tempo pelo seu pai, ela e seus dois irmãos, os meus três filhos mais velhos. Fato que me magoou profundamente e pelo qual vira e mexe escrevo um conto em desagravo, mas ainda não achei o que faria acalmar meu coração e perdoá-lo de ato tão vil: abandonar os próprios filhos.
Na minha pouca sabedoria, presa ao egoismo do meu rancor, não via como esta relação entre meus filhos, principalmente a Anna, minha filha que está na foto acima, em pequena chamada a "Princesinha do papai", pudesse ser consertada depois de todo o abandono. Errei, errei de novo, existe nessa vida um elemento chamado tempo, que conserta todas as coisas, quando se há ou um dia houve a palavrinha mágica que cria o bem: amor.

O relato da Anna, de como ela vivenciou isto, e o comentário de seu pai sobre as leviandades do mundo que o fizeram esquecer de seu dever paterno estão publicados, mostrando que entre pai e filho, não há maldades, erros, acasos ou infortúnios que possam destruir esta relação. Convido-os a ler o texto Pai, publicado no blog:
www.meninafreitas.blogspot.com

Revisão em junho de 2026.

Além da atualização ortográfica do título, que passou a ser "Pai, quando o tempo reescreve a nossa história", sem hífen, reli este texto quase dezessete anos depois de publicá-lo.

Na época eu estava prestes a completar 45 anos. Hoje tenho 61 e me impressiona perceber como o tempo continuou fazendo exatamente aquilo que eu descrevia: reescrevendo histórias.

Meu pai continua sendo uma das presenças mais importantes da minha vida, mesmo tendo partido há muitos anos. Descobri que o luto não termina. Ele muda de forma. Em alguns momentos vira saudade, em outros vira conselho, memória, referência moral ou simples conversa silenciosa. Ainda hoje, quando tomo decisões difíceis, às vezes me pego imaginando o que ele pensaria a respeito.

Ao reler este texto, também reencontro uma mulher magoada com o abandono que meus filhos viveram. Eu acreditava que algumas feridas eram grandes demais para cicatrizar. Felizmente, mais uma vez, a vida me mostrou que eu sabia menos do que imaginava.

O tempo não apaga tudo. Há dores que permanecem. Há ausências que deixam marcas definitivas. Mas o amor costuma encontrar caminhos que a razão desconhece. Vi meus filhos reconstruírem vínculos que eu julgava perdidos e aprendi que não cabe a mim determinar quais relações podem ou não ser restauradas.

Hoje percebo que este texto não fala apenas sobre pais e filhos. Fala sobre humildade diante da vida. Sobre reconhecer que os acontecimentos continuam em movimento muito depois de acreditarmos conhecer o seu desfecho.

A fotografia que acompanha a publicação também ganhou novos significados. Nela está minha filha Carolina, ainda jovem, segurando um exemplar de Oculta durante o lançamento realizado na Casa das Rosas em 2006. Naquele instante nenhum de nós fazia ideia dos caminhos que percorreria. Como quase tudo que importa na vida, o sentido daquela imagem só apareceu muitos anos depois.

Se existe algo que aprendi desde então, é que raramente compreendemos uma história enquanto a estamos vivendo. O entendimento costuma chegar depois, quando o tempo já escreveu mais alguns capítulos.

Eliana de Freitas

Eliana de Freitas
Enviado por Eliana de Freitas em 23/08/2009
Alterado em 21/06/2026
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