Moscando
Moscando é o primeiro curta de Thiago Peixoto, 23 anos, repórter, idealista, um incansável trabalhador da irreverência.
Outro dia me perguntou:
- O que é isso que a gente sente que faz com que após 12 horas entre trabalho, condução lotada e falta de grana, antes de deitar para dormir com mais três pessoas num quarto pequeno, nos entreguemos a escrever, compor uma música, gravar no celular, que por sinal está com a conta atrasada, só para pôr na internet, fato que não traz nenhum retorno financeiro?
- É a propensão do seu espírito para o ideal, onde o homem faz o que precisa ser feito em acordo com a melhor parte da sua consciência, com a única esperança de que os outros vendo a sua inspiração, também acreditem nos próprios sonhos e a estes se entreguem para construir um mundo melhor.
Recomendo que entrem no blog do Thiago, "Moscando" foi o vídeo criado para o concurso do CQC, uma comédia, eu participo como Madame Gentili - a cartomante trambiqueira. "Burro de carga", o primeiro vídeo que aparece quando se abre o blog, é uma música composta por ele e o vídeo é cheio de humor e criatividade.
Espero que gostem: http://www.espacothiagopeixoto.blogspot.com/
Revisão em junho de 2026.
Este texto era apenas um convite para assistir ao primeiro curta-metragem de meu filho Thiago Peixoto. Na época ele tinha 23 anos, trabalhava como assessor de imprensa, repórter, estudava, criava projetos culturais e sonhava com as mais diversas possibilidades profissionais. Ainda não era poeta. Sua trajetória na literatura começaria alguns anos depois, ao conhecer o movimento de slam no Slam da Guilhermina, experiência que transformaria profundamente sua vida. Em 2012 chegaria à final do ZAP! – Zona Autônoma da Palavra, realizada no Sesc Pompeia, iniciando um caminho que o levaria a tornar-se uma das referências da poesia periférica paulistana.
Hoje, olhando para trás, percebo que este pequeno texto guarda um registro muito maior do que eu imaginava. Naquele período eu havia falido e morávamos os quatro — eu e três filhos, o mais velho Daniel já havia se casado — numa pequena casa de fundos, com cerca de 27 metros quadrados, no terreno de minha mãe. O dinheiro era escasso, mas a criatividade não.
O curta "Moscando" foi gravado de forma totalmente artesanal, no quintal e no porão daquela casa. Thiago escreveu o roteiro, encenou e dirigiu. Eu interpretei uma cartomante trambiqueira chamada Madame Gentili. Carolina e Heloísa também participaram das gravações. Em poucas horas reunimos roupas, objetos de cena, improvisamos cenários e filmamos tudo em família.
O vídeo acabou sendo retirado do ar anos depois por decisão do próprio Thiago, que entendeu que algumas falas reproduziam visões e expressões comuns à época, mas incompatíveis com os valores e compreensões que desenvolveu posteriormente. Respeito sua decisão, embora confesse sentir certa saudade daquele registro.
Não pelo curta em si, mas porque ele preservava algo muito precioso: uma fotografia de quem éramos. Eu, vivendo uma falência. Carolina e Heloísa ainda adolescentes. Thiago antes da poesia ocupar o centro da sua vida. Uma família com poucos recursos, mas com imaginação de sobra.
Revisando este texto tantos anos depois, percebo que o verdadeiro tema nunca foi o concurso do CQC nem a possibilidade de entrar para a televisão. O tema era outro: a capacidade que a arte tem de surgir mesmo quando falta quase tudo.
Eliana de Freitas